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domingo, 2 de agosto de 2009

Artigo dominical

O Santo Cura d’Ars
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

“Era uma vez, na França, um pequeno camponês cristão que, desde a mais tenra idade, amava a solidão e o bom Deus. Como aqueles senhores de Paris tinham feito a Revolução Francesa e não deixavam as pessoas rezar, ele ia assistir à missa, com os pais, no fundo de um celeiro. Os padres mantinham-se escondidos, e quando um deles era apanhado, cortavam-lhe a cabeça segundo as regras da arte. Eis porque João Maria Vianney alimentava o sonho de tornar-se sacerdote. Mas, se não lhe faltava a oração, faltavam-lhe os conhecimentos. Apascentava os carneiros e trabalhava os campos. Entrou tarde para o seminário e fracassou em todos os exames. As vocações eram cada vez mais raras, e no fim acabaram por aceitá-lo apesar de tudo. F oi designado para Ars, e ficou lá até à sua morte. O último sacerdote da França no último lugarejo da França. Mas foi cem por cento sacerdote, o que não acontece com freqüência. Foi sacerdote tão completamente, que o último lugarejo da França acabou por ter o primeiro sacerdote da França e a França inteira viajou para vê-lo. Ora, ele convertia todos os que iam visitá-lo, e, se não tivesse morrido, teria convertido a França inteira. Curava as almas e os corpos, e lia nos corações como num livro. A Virgem Santíssima ia visitá-lo, o demônio puxava-o pelos pés, mas não conseguiu impedi-lo de ser um santo. Foi promovido a cônego, a Cavaleiro da Legião de Honra – e depois a Bem-aventurado. Enquanto foi vivo, nunca chegou a entender por quê. E essa era a melhor prova que havia merecido a sua glória. Tudo isso se passou no século XIX, que é chamado, no Paraíso, onde se conhece o valor real das pessoas, o século do Cura d’Ars”.

Encontrei este belo resumo da vida de São João Maria Vianney na capa de um livro (O Cura d’Ars, Henri Ghéon, S. Paulo, 1986) e achei melhor copiá-lo na integra pela sua simplicidade, clareza e poesia.
Neste Ano Sacerdotal a Igreja Católica quer lembrar os 150 anos da morte do Santo Cura d’Ars, apontando para os padres e para todos os cristãos exemplos de serviço sacerdotal, de vidas doadas na simplicidade do dia a dia, cumprindo tarefas ordinárias.

Com a figura desse grande santo, neste primeiro domingo de agosto, dia do padre, quero homenagear todos os padres que trabalham em nossa Diocese: os padres do PIME, os diocesanos e os religiosos. De maneira especial, quero lembrar os que trabalham nas paróquias mais afastadas do interior, andando no meio das roças e das matas, ou navegando pelos nossos rios e igarapés. Contudo não menos desafiadora é a vida pastoral nas paróquias urbanas, onde está se tornando cada vez mais difícil reunir as pessoas, motivá-las para uma vida mais fraterna e solidária, tão grandes são as preocupações pela sobrevivência e tão fortes são as tentações do consumo, da diversão e do individualismo. Se muitos ainda participam das nossas comunidad es, muitos mais, porém, são os irmãos e irmãs afastados, sem tempo e sem vontade de encontrar um momento para Deus, para os irmãos e para si. Agradeçamos pelos padres que temos, rezemos pela saúde e perseverança deles e para que o Senhor dê aos jovens, que Ele continua chamando, a força e a coragem de responder.

Talvez a oração mais bonita que podemos fazer para os nossos padres seja que eles continuem a oferecer generosamente ao povo de Deus o “alimento que permanece até a vida eterna”, isto é, o próprio Jesus presente no pão da Palavra e no pão da Eucaristia. Não deveria ser tão difícil. Todos os dias os padres, celebrando a Santa Missa, podem escutar e meditar a Palavra do Senhor, podem receber o Senhor nos sinais do pão e do vinho consagrados. A Palavra e a Eucaristia devem ser, portanto, o alimento mais importante para a vida do próprio padre e para que ele possa, com o próprio exemplo, também ajudar todos os que quiserem a encontrar, a reconhecer e a seguir a Jesus. Ninguém é ordenado padre para si mesmo, mas para servir ao povo de Deus. A gratuidade, a disponibilidade e a acolhida fraterna devem ser, então, as qualidades visíveis de todo padre. Ele, porém, não dá apenas a sua vida, ele deve saber apontar e oferecer a Boa Notícia do Evangelho, para que cada cristão possa dizer como os moradores daquele lugar disseram à samaritana: “Já não é por causa daquilo que contaste que cremos, pois nós mesmos ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo” (Jo 4,42). Feliz aquele padre que trabalha para formar católicos adultos na fé, conscientes, responsáveis, comprometidos com a causa do Reino. Quem sabe um dia, no Paraíso, descobriremos que o padre mais santo do século XXI foi um das nossas bandas.Muito mais difícil é que seja um bispo.

domingo, 26 de julho de 2009

Artigo dominical

Mais ricos ou mais pobres?
Dom Pedro José Conti, Bispo e Macapá

Um pai muito rico quis ensinar ao filho, ainda criança, o valor das riquezas que possuíam. Isso para ele aprender desde cedo o valor dos bens materiais e do dinheiro. Nada mais simples para alcançar o seu objetivo do que levar o filho lá onde poderia conhecer a pobreza. Assim vendo pessoas carentes, o filho devia aprender a dar valor aos bens que um dia viria a administrar. O pai decidiu que passariam alguns dias num vilarejo perdido no meio da mata, bem na beira de um rio. A criança fez logo amizade com os meninos do lugar, brincou, pulou, aproveitou bem das novidades. Na viagem de volta, o pai quis indagar ao filho o que ele tinha achado da experiência, e o que tinha refletido vendo a vida simples daquelas pessoas. O garoto estava cheio de coisas para contar. Começo u a dizer que era bem verdade que eles tinham uma piscina no quintal da casa, mas nada comparável com o tamanho do rio onde as crianças lá tomavam banho e brincavam. Também se lembrou das árvores que estavam bem enfileiradas no parque da mansão onde eles moravam, porém disse que tinha ficado espantado com o tamanho das árvores da floresta. Lá, sim, deu para subir bem alto. Por fim revelou ao pai que tinha visto animais desconhecidos: dois cachorros e cinco cavalos. Contudo lá havia perdido a conta dos cachorros e, sobretudo, tinha visto um monte de macacos pular entre os galhos das árvores. Tinha visto, ainda, uma cobra grande e até um jacaré.
Nesta altura o pai ficou perplexo e quis perguntar ao filho que conclusão tiraria daquela viagem. A resposta do filho, após ter visto tudo aquilo, foi: “Sabe pai, nós, em comparação a eles, somos muito pobres”.
Como sempre, cada história que conhecemos pode nos levar a conclusões diferentes.
Lembrei-me dessa, porque de 21 a 25 de julho ocorreu, em Porto Velho, Rondônia, o 12º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base com o tema “CEBs Ecologia e Missão”.
Mais uma vez a Amazônia levanta um grito por socorro e por respeito. Devemos sempre nos questionar o que será dessas imensas riquezas que formam o ambiente vital e de sobrevivência para os milhões de pessoas que moram por aqui. O que irá sobrar após ter tirado a madeira da mata, os minérios do subsolo e a água doce dos rios? Há bens que são dádivas da natureza. Continuam ficando para o bem e a alegria de todos, quando são respeitados por todos. Quando se tornam propriedades particulares só enriquecem uns poucos. Entendo que são assuntos grandes e sérios, entretanto o que está em jogo, nesses tempos, não é só o bem-estar de alguns, é, talvez, o equilíbrio ambiental do próprio planeta Terra. Tamanha é a responsabilidade dos poderosos quando tomam as deci sões seguindo os seus interesses e não o bem da humanidade inteira.
A mesma reflexão vale se deixamos ecoar em nosso coração a página da multiplicação dos pães e dos peixes que o evangelho deste domingo nos oferece. Jesus nos apresenta o sinal da fraternidade: o pouco que se torna muito, quando o sabemos partilhar. Isso vale quando juntamos as nossas coisas, os nossos saberes, as nossas capacidades, para que todos possam enriquecer-se. Ninguém fica mais pobre, ao contrário todos ficamos mais ricos.
Deveria ser esta a experiência convincente das pequenas comunidades cristãs, animadas não pelo lucro ou o interesse imediato de alguns, mas pela alegria da fraternidade e da solidariedade, com o olhar sereno e confiante para o futuro delas e dos próprios filhos. Se isso é possível vivenciar em pequenos grupos, por que não poderia ser o caminho para um futuro de vida e paz para a humanidade toda?
A página da multiplicação dos pães e dos peixes, mais do que um milagre de Jesus é, portanto, um sinal do seu projeto de amor. Mais uma vez devemos lembrar que o que chamamos de “meu” será desfrutado somente por nós. Talvez satisfaça a nossa ganância e o nosso orgulho. Porém o que é partilhado e é de todos, satisfaz a todos, sobra para todos, faz a alegria de todos.
Vamos rezar, esperar e lutar para que a Amazônia continue a ser um bem precioso para todo o povo brasileiro e para toda a humanidade. Todos ficaremos mais ricos e nada ficará perdido. Ainda há tempo.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Artigo

Trânsito é vida
Alex Gomes*

O Amapá lidera uma triste estatística no cenário nacional, somos atualmente recordistas em mortes no trânsito, são vidas humanas que estão se perdendo por pura e simples falta de respeito ao próximo, estamos nos tornando cada vez mais egoístas, além desses e de outros fatores temos um governo (falo no âmbito federal, estadual e municipal já que ambos trabalham em comum acordo) totalmente negligente e inoperante, haja vista que no caso específico de Macapá temos uma parceria entre governo e prefeitura (antes denominada parceria nota 10, lembram!), que serviu tão somente para eleger seus mandatários maiores do executivo, Waldez, João Henrique e agora Roberto Góes, essa parceria da desgraça e do abandono não preparou nossa cidade para o fluxo de veículos que hoje observamos nas ruas, a falta de fiscalização nas auto-escolas, a utilização do órgão executivo de trânsito (DETRAN) de maneira eleitoreira nos empurrou em direção ao caos vivenciados por nas ruas e avenidas da cidade assim como do interior do Estado, além é claro da falta de amor a vida por parte daqueles que compõem o nosso trânsito.
1, 2, 3,... 48, 49, 50... Isso não é contagem regressiva são homes e mulheres que foram mortos somente esse ano no trânsito amapaense, são famílias que foram destruídas, nossas vias em sua maior parte estão sem sinalização, ruas e avenidas intrafegáveis, cheias de lixo e esburacadas, nossa engenharia de tráfego parece que não existe, onde a percebemos está obsoleta, as instituições públicas responsáveis pelo trânsito amapaense devem assumir suas respectivas responsabilidades, sabemos que os órgãos não governamentais têm responsabilidade social, contudo, não são as igrejas amapaenses, nem atitudes isoladas de uma parcela comprometida do judiciário que deve buscar solução para os problemas do trânsito louco do Amapá. A impr udência tornou-se algo banal, ainda não atentamos que são vidas humanas que transitam e trafegam diuturnamente em nossa cidade, ainda não compreendemos que álcool e direção e uma mistura que não combina, a lei seca tem que ser colocada em prática efetivamente, não adianta fazer de conta que se aplica a lei, o rigor da lei deve ser pra todos, sabemos o quanto é difícil para a Polícia Militar, agentes da EMTU e guardas municipais trabalharem em nossas ruas, pois de vez em quando eles se deparam com aqueles que se utilizam como diz o antropólogo Roberto da Mata do jeitinho brasileiro para burlarem a lei.
São muitos os impostos arrecadados, o que está sendo feito desses recursos públicos, em 2006 salvo engano, o Ministério Público Estadual cobrou explicações do DETRAN-AP sobre a aplicação desses recursos, o Estado foi intimado a prestar contas, mas nunca mais ouvimos falar nada a respeito do assunto. Onde estão nossos políticos, nossos representantes eleitos para cuidar dos assuntos que interessam a coletividade, por que não estão discutindo o assunto com o povo e o com o poder executivo, objetivando a busca de soluções para esse trânsito que mata sempre mais a cada dia, atualmente existem mais homicidas nas ruas e utilizando das armas com as quais cometeram seus crimes do que atrás das grades, essas pessoas eram pra estar presa, q uando um indivíduo mata alguém ele comete um homicídio, isso segundo o código penal brasileiro, então, por que temos vários assassinos soltos por nossas ruas, eles estão prontos pra matar novamente.
O trânsito é feito de pessoas, gente como a gente, que trabalha, estuda, ama e quer se amado, com familiares que aguardam nossa nosso retorno, é feito de vida, devemos ter mais respeito e consideração com a vida do próximo, hoje são desconhecidos, amanhã pode ser uma pessoa muito querida de nosso convívio social, então, vamos ter mais cautela, mais respeito, vamos ser mais prudentes, vamos dirigir com o mínimo de civilidade, também somos responsáveis pelo que está ocorrendo em nossa cidade, às vezes penso que somos os maiores responsáveis, pois somos incapazes de escolher direito os homens e mulheres que legalmente deveriam solução para nossos anseios e necessidades, não podemos mais aceitar tal situação, basta de campanhas educativas, o Estado tem que ser mais repressivo em suas ações.


* Alex Gomes é Bacharel em História pela UNIFAP

domingo, 12 de julho de 2009

Artigo dominical

O mínimo indispensável
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Na vida de Santo Antão, um dos padres do deserto, se lê esta história.
Um jovem desiludido da vida decidiu ser monge. Vendeu todos os bens reservando para si somente o indispensável. Em seguida, apresentou-se a Santo Antão. Este o acolheu com bondade e perguntou-lhe se realmente tinha renunciado a toda riqueza.
– Sim – respondeu o jovem – Vendi tudo o que possuía, guardei somente o mínimo indispensável.
O Santo deu-lhe a seguinte ordem: - Se quiser ser monge de verdade, vá à aldeia mais próxima, compre um bom pedaço de carne, vista essa carne como se fosse uma roupa e depois volte para mim.
O jovem ficou intrigado com a recomendação, mas, confiando na sabedoria de Antão, obedeceu. Comprou a carne, cortou-a em fatias muito finas e colocou-as no seu corpo. Assim enfeitado, com aquela roupa tão esquisita, tomou o caminho do retorno. Foi uma volta bem amarga. Logo que saiu da aldeia, vários cachorros famintos foram atrás dele, abocanhando as carnes. Incontáveis insetos vorazes zumbiam e ferravam o seu corpo. Os urubus das redondezas também começaram a disputar o presente inesperado. O jovem chegou todo ensangüentado aos pés de Santo Antão que lhe falou:
- Viu? Aqueles que deixam tudo, mas, ao mesmo tempo, querem reservar-se o mínimo indispensável, acabam como você. Aquele mínimo de riqueza logo se tornará para eles um sofrimento insuportável.
Sempre achamos essas histórias antigas muito radicais. Pensamos serem outros tempos. É verdade, aqueles homens se foram. Contudo no evangelho de domingo, 12, Jesus envia os doze para irem às casas das redondezas sem levar praticamente nada.
A razão dessa pobreza material se chama liberdade. Não é, porém, a leveza de quem não carrega nada porque não quer se fadigar, ou porque sabe que encontrará tudo lá onde chegar. É a simplicidade de quem acredita no único tesouro que leva consigo no coração: a boa notícia do Reino, por causa do qual eles devem convidar as pessoas à conversão. Se carregassem muitas coisas, a viagem ficaria mais difícil; e a luminosidade do anúncio poderia ser ofuscada pelas aparências dos enfeites. De certa forma, nem as pessoas dos apóstolos devem aparecer, porque não estão dando testemunho próprio ou das suas idéias. No centro de tudo está a boa notícia que o Reino de Deus chegou! Nada, nada mesmo, deve atrapalhar.
Mais uma lição para nós que, às vezes, achamos que o nome do pregador famoso, seja mais importante do que a mensagem. Ou pensamos que a organização chamativa do tal grupo desperte mais atenção do que o próprio Senhor. Pobreza, então. Ordem de Jesus.
A liberdade é coisa séria. Não vale somente para os discípulos, vale também para os que podem ou não acolhê-los. Com efeito, os apóstolos não devem ficar nas casas para convencer de todo e qualquer jeito as pessoas, custe o que custar. Os que abrem as suas casas devem sentir-se livres de aceitar ou de rejeitar o anúncio do Reino. Imposições, ameaças, truques, presentes e promessas, não combinam com a alegre acolhida da Palavra do Senhor. Somente um coração livre é capaz de abrir-se à novidade da paz e do amor que os grupinhos dos apóstolos, de dois em dois, vão testemunhando. À liberdade e à simplicidade dos mensageiros deve corresponder à livre escolha de quem acolhe, para que não seja algo de superficial e de emocional, mas revele a transformação sincera da própria vida. Nenhum poder então, nenhuma imposição. Somente a liberdade do coração para que também a gratuidade do amor de Deus possa manifestar-se num encontro libertador com a pessoa amada.
Para quem recusar sobrará a poeira dos pés. Quem sabe, também a lembrança de uma ocasião livremente perdida.

domingo, 5 de julho de 2009

Artigo dominical

Cara de ladrão

Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Um homem cortava árvores com um machado e vendia a lenha. Gostava muito da sua ferramenta. Um dia o seu machado preferido desapareceu. O homem procurou-o, mas foi inútil; não conseguia mais encontrá-lo. Convenceu-se que alguém o tinha roubado. Por causa disso, começou a espiar o filho do vizinho. Fazia muito tempo que não gostava do jeito dele. Agora que o observava bem, não tinha mais dúvidas: o andar dele era de ladrão, a cara e o olhar dele, também. Até os cabelos cumpridos eram de ladrão. Só podia ser ele quem tinha pegado o machado. Precisava desmascarar o criminoso. Após alguns dias, porém, varrendo a casa, a mulher encontrou o machado sumido. Estava debaixo do sofá, onde o próprio marido o tinha jogado voltando do trabalho. O homem ficou feliz e reparando novamente o filho do vizinho decidiu que, talvez, o andar dele não fosse de ladrão, nem a cara, nem o olhar e nem os cabelos. Contudo, melhor desconfiar, nunca se sabe.
Essa pequena história nos lembra como é fácil rotular as pessoas. O fazemos seguindo os nossos gostos, as nossas idéias e, na maioria das vezes, os nossos pré-conceitos. Depois é difícil desfazer os rótulos; quando o percebemos eles já estão bem colados nas pessoas e essas os carregam a vida inteira. É difícil aceitar e acolher os outros como eles são, sem querer julgá-los ou classificá-los, conforme os nossos esquemas mentais. Mais difícil ainda é nos alegrarmos com a melhoria deles.
Aconteceu também com Jesus, voltando para a sua cidade natal, Nazaré. O rótulo dele era aquele de ser o filho do carpinteiro, de ser pobre, do interior, do norte. Era verdade que agora ele revelava uma nova sabedoria, tinha gestos diferentes, e alguns diziam que fazia milagres. Contudo, para o povo de lá, continuava sendo o mesmo de alguns anos antes. Não queriam admitir que tivesse mudado.
Por que é tão difícil reconhecer que as pessoas podem mudar, inclusive para melhor? De onde nos vem tanta desconfiança? A resposta é simples.
Primeiro porque se admitirmos a mudança do outro, que agora se apresenta diferente de como o tínhamos rotulado, deveríamos reconhecer que erramos. Fica mais cômodo continuar a pensar que nós estamos certos e que só mudaram as aparências dele, a substância, porém, ainda é a mesma. Tudo disfarce. Porque nós nunca erramos.
A segunda razão é pior do que a primeira. Excluir que as pessoas possam mudar nos permite também continuar a sermos o que somos; na maioria das vezes acomodados em nossa mediocridade, ou em nossa ilusória superioridade. Reconhecer que seja possível mudar significaria admitir que nós também poderíamos ou deveríamos mudar. Isso nos incomoda e nos deixa inseguros. Muito melhor manter as nossas idéias, os nossos rótulos, porque isso nos faz sentir bem, na nossa segura e cômoda desculpa que sempre defendemos: mudar é impossível. Foi por causa da cabeça dura dos moradores de Nazaré, diz o Evangelho, que Jesus não pode fazer milagre algum naquele lugar e que somente curou alguns doentes.
Mais uma vez deveríamos entender que o verdadeiro milagre que o Senhor quer fazer conosco, se o deixarmos, é aquele de entrar em nossa vida como amigo e companheiro de luta e caminhada, sem mais nem menos, acolhido com alegria e confiança. Nós, porém, em várias formas, continuamos a rotulá-lo de “quebra galho”, de “curandeiro”, ou de “invasor de privacidade”. Naturalmente se acharmos que nos deu uma forcinha e resolveu o nosso problema, nesses casos valeu a ajuda. Mais amável ainda é quando não nos diz o que devemos fazer, querendo impor a sua moral. Se nos deixar a consciência em paz, é bom. Quantas vezes o chamamos de “salvador”, mas dos outros ou dizemos que é a “verdade”, contanto que esta coincida exatamente com as nossas idéias.
Um amigo verdadeiro não precisa de rótulos. Está conosco porque nos ama, nada mais. Nesse caso os piores cegos somos nós: os que não querem ver.

domingo, 28 de junho de 2009

Artigo dominical

Um grande homem

Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Concluindo o Ano Paulino, podemos nos perguntar o que irá ficar dele. Um bom número de pessoas teve a possibilidade de refletir, um pouco mais, sobre a figura desse apóstolo, rico de uma personalidade única e missionário devotado aos pagãos de sua época.
O Ano Paulino, muito além da finalidade de prestar homenagem a este ilustre personagem da história cristã, tinha também o objetivo de reaproximar o homem de hoje, atordoado pelo seu poder tecnológico e iludido com a sua auto-suficiência, àquela incansável testemunha da única força realmente transformadora: a loucura da cruz de Jesus Cristo. Seria bom, portanto, que algo de Paulo ficasse não somente para os cristãos, mas também para tantos outros que pouco, ou nada, conhecem dele. Um bom exemplo e uma humanidade rica sempre devem orgulhar qualquer pessoa que se sente parte viva da grande família humana.
Tomo, portanto, a liberdade de apontar algumas das virtudes humanas de Paulo, assim como se apresentam nas suas cartas, documentos que ele mesmo escreveu – ao menos alguns - sem alguma finalidade de auto-exaltar-se.
A primeira virtude que quero apontar é a gratuidade. Paulo fez questão de dizer, várias vezes, que não estava evangelizando por causa de alguma vantagem de dinheiro, ou de honrarias humanas. A “obrigação” de anunciar o Evangelho brotava simplesmente da impossibilidade de conter uma riqueza e uma verdade valiosas demais. Para não ser mal entendido, ou depender da comunidade, fez questão de prover às suas necessidades com um trabalho manual. Paulo ganhava o suficiente para sobreviver, com certeza não tanto para fazer negócios ou acumular dinheiro. A condição de trabalhador autônomo também proporcionava ao Apóstolo uma grande liberdade de ação e de pregação. Podia dizer, com toda honestidade, que servia somente ao Evangelho e aos irmãos ao encontro dos quais se sentia enviado. Hoje ouvimos falar bastante de “voluntariado”, de “amigos de...”. Muitas instituições honestas, que não tem condição de pagar, buscam parceiros generosos que coloquem um pouco do seu tempo e da sua profissionalidade a serviço de quem precisa. Parece que a grande maioria das pessoas esteja tão atarefada que não lhe sobra mais tempo para a dedicação gratuita aos outros, não tendo outra recompensa que o sorriso de uma criança carente e o “muito obrigado” de um idoso pobre e esquecido. É a suprema qualidade humana de ajudar os outros, de assumir compromissos, sem nos perguntar o que vamos ou iremos ganhar. O amor e a generosidade se pagam, por si mesmos.
Outra virtude semelhante, da qual Paulo zelava muito, foi a amizade. Não simplesmente o coleguismo ou o companheirismo que vêm das circunstâncias da vida, das festinhas de final de ano, ou das farras noturnas. Falo mesmo daquele sentimento que se torna doação e sacrifício. Paulo declara amar os seus amigos, aos quais tinha pregado o Evangelho, com laços semelhantes aos de uma mãe que acaricia os seus filhos pronta a dar a própria vidas para eles. Ou como um pai sempre capaz de exortar e animar os seus filhos. O que deveríamos ter de mais exemplar do que o amor generoso dos pais e de mais confiável do que a amizade deles com os próprios filhos? Pobre daquela família onde as pessoas convivem como estranhos debaixo do mesmo teto, sem sentimentos sinceros e sem a partilha das emoções e dos desafios que a vida reserva a todos. Paulo não tem receio de declarar os seus afetos, porque são puros, gratuitos e somente visam o bem dos amados.
Por fim, aponto a virtude de saber compreender os outros, colocando-se no lugar deles. Para conduzir as pessoas a Cristo, Paulo diz que procurou identificar-se com todos, fossem eles pagãos ou judeus, por exemplo. Nunca é fácil perceber o que passa na cabeça e no coração dos nossos semelhantes. Os pais acham que os filhos deveriam pensar e agir igual a eles; esquecem que os tempos são outros. Os filhos também raramente suportam as comparações com o passado e pouco se importam com a experiência e com esforço dos pais. Os mais abastecidos não entendem como é que os mais fracos demoram tanto para resolver questões tão simples. Os pobres têm certeza absoluta que se fossem ricos seriam mais felizes e juram que saberiam ajudar os necessitados. Os evangélicos teimam em considerar os católicos burros adoradores de imagens; e os católicos dificilmente se questionam sobre as motivações da busca de Deus, ou dos seus favores, em outras experiências religiosas. E assim poderíamos continuar.
Paulo antes de ser o grande Santo, venerado e admirado por todos, foi um grande homem. Todos nós deveríamos tentar sê-lo. Porque não dá mesmo para sermos santos de verdade sendo homens pela metade.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Artigo

O caminho do Brejal, de Sarney

Ademir Pedrosa*
(pedrosademir@hotmail.com)

Depois do axioma bestialógico de que o homem só se sentirá deveras realizado após plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro, os escrevinhadores se danaram a escrever livros a torto e a direito. É por isso que se repete no Brasil o que acontece no Amapá: há mais escritores que alfabetizados. Ora, ter um filho é algo que basta ter fertilidade e uma mulher que tope dividir essa tarefa – ou vice e versa.

Plantar uma árvore é algo que me parece naturalmente simples. Uma pá e a muda de uma planta já são suficientes. Agora, escrever um livro é algo que requer algo mais, a começar pelo domínio da Língua, coisa que alguns têm demonstrado que precisariam de um reforço do Mobral. É por causa disso que talvez o País esteja atolado numa pocilga de livros. E pra quem pensa que isso é pouca porqueira basta ver o que vendeu de livros Paulo Coelho. Vendeu milhões de exemplares em diversos idiomas, e entrou olimpicamente para Academia Brasileira de Letras.

O escritor Machado de Assis, que é presidente perpétuo da Academia, nunca vendeu, durante estes cem anos, um terço sequer do que vendeu de livros o Mago Paulo Coelho. No Brasil só a Bíblia vendeu mais. A Bíblia é considerada livro de cunho literário, o do Mago de auto-ajuda. A Bíblia está no mercado brasileiro desde quando o Brasil foi descoberto, o do Mago há três décadas. O hábito pode até fazer o Monge, mas o livro não.

Embora não seja a qualidade literária que promove o ingresso do escritor à Academia, pois basta que tenha escrito um livro e que faça uma boa campanha de sua candidatura que poderá ser eleito. É uma eleição cujo critério é o voto dos acadêmicos que decide qual dos candidatos ocupará a cadeira vaga. Aquele que obtiver o maior número de sufrágios é eleito. Mas não vamos esquecer que já houve eleições por aí que impugnaram e até cassaram mandatos de prefeitos quando se comprovou que não sabiam ler, eram ágrafos de pedra. O TRE não aprova candidatos analfabetos, a Academia também.

Não é a Academia quem escolhe os concorrentes, ela escolhe um dentre os candidatos. Na verdade a Academia é uma agremiação que reúne escritores sem a preocupação de qualificar de bons ou ruins, o que não ilide o fato de eles serem representantes das Letras no Brasil. O Escritor João Ubaldo Ribeiro, por exemplo, se sente honrado de pertencer à Academia. E outros se sentem virtuosos nesse mesmo diapasão. Já o escritor Millôr Fernandes que nunca quis ser Acadêmico, tripudia. Veja a análise que ele faz do livro Brejal dos Guajás, do Acadêmico José Sarney:

Quando o autor diz que “o caminho do Brejal era longe”, como garante que é o caminho do Brejal? Sendo longe do Brejal, o caminho, em última análise, não é do Brejal. Vai ver é de Pirapora, Cascadura, Nova Zelândia, sei lá. Uma coisa, Sir Ney – o caminho de um lugar é sempre perto desse lugar, a partir de. Pode até não ir longe, mas é perto. Se, porém, o autor assume um ponto de vista exterior em relação ao Brejal (o que absolutamente não foi feito), tem que dar uma idéia de onde está – na Academia Brasileira de Letras, por exemplo? Mas daí pro Brejal, todos sabem, o caminho é muito perto. Em qualquer país civilizado Brejal do Guajás seria motivo para impeachment.

Sarney era, naquele estádio, presidente do Brasil. Por aí o leitor pode ver que a Academia não goza desse prestígio atribuído a ela como se fosse uma unanimidade. Nem o Senador, por ser integrante dela. Não vamos misturar alho com bugalhos...

(Ademir Pedrosa é professor e escritor)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Artigo

Marabaixo x igreja – intolerância religiosa
Rostan Martins

A pendenga entre os marabaixeiros e alguns líderes da igreja católica continua, e que já se arrasta por várias décadas, um claro exemplo de intolerância religiosa. De um lado a igreja católica declara que “não se pode misturar a água benta com o diabo” (D. Aristide Piróvano), declarando que nas manifestações do marabaixo existem manifestações profanas, que são contrárias as doutrinas do catolicismo, como o consumo de bebidas alcoólicas, danças sensuais e a utilização de músicas, etc. E com isso alguns padres proibiram os santos do marabaixo (Divino Espírito Santo e Santíssima Trindade) de estarem na igreja nos seus dias. Já os marabaixeiros alegam: que na sua origem o marabaixo sempre foi unido com a igreja; nas manifestações do marabaixo existem aspectos religiosos e que existem muitos marabaixeiros que são católicos. Danniela Ramos, presidente da Associação Folclórica Raimundo Lasdilau, declarou: “isso que a igreja está fazendo com o marabaixo é uma discriminação com a nossa cultura”.

A intolerância religiosa existe em todos os seguimentos, mas no Brasil é constatada mais no campo das religiões de matriz africana, ou as afro-brasileiras. Um mal que todos querem extinguir. O marabaixo não é uma religião, é um folclore, mas, na sua criação, incorporou aspectos religiosos identificados com o catolicismo. Os negros cultuavam os seus santos e para disfarçarem e não serem perseguidos cultuavam os santos dos brancos. Mesmo assim existem no marabaixo as ladainhas, as orações, oferendas, as promessas, imagens, fé, as missas e os dias de cultos aos Santos. A festa do Divino Espírito Santos tem origens eminentemente religiosas. (Brandão, 1978).

A intolerância religiosa é caracterizada pela falta de habilidade ou vontade em reconhecer e respeitar as diferenças ou crenças religiosas das outras pessoas. Como fezeram: D. Aristide Pirovano; Padre Júlio Maria Lombaerd (combateu o marabaixo publicamente, chegando a quebrar a corôa de um dos santos. Ele fechava a igreja, mas os marabaixeiros ficavam os mastros na frente da igreja); cônego Teixeira (que faltou de propósito as festividaes do marabaixo); padre Geovanni Pantarolo, paróco da igreja São Benedito (que, no ciclo de 2008, aceitou os santos na igreja, mas na homilia fez declarações humilhantes aos marabaixeiros e neste ano apresentou um “cantinho” no salão da igreja); e os marabaixeiros (que invandiram a igreja, domingo, 31/05). A Constituição Federal do Brasil garante a liberdade religiosa a todo cidadão brasileiro. Isso inclui o direito de escolher uma religião e o de expressar as tradições e ritos da crença escolhida. Mas, o afronto, sobretudo do catolicismo e da Evangélica, sobre outras religiões, manifestações folclóricas e seus seguidores ainda é muito grande.

A intolerância também é verificada de ambas as partes. Em anos anteriores “o povo se revoltou e quis invadir a casa do Pe. Júlio” um embate que teve facas, rifles, cacetes, de ambos os lados (Canto, 1998). Nos últimos dias a pendenga se acirrou ainda mais. O padre Pantarolo, diante de uma solicitação do marabaixo do Laguinho de levar o Divino Espírito Santo para a igreja na véspera do seu dia e a solicitação de uma missa, determinou um “cantinho” no salão da igreja para o santo, justificando que naquele dia seria um dia especial, a coroação de Maria. O que os líderes do marabaixo entenderam ser uma discriminação, queriam um lugar no altar. Não aceitaram e prometeram protestar.

O protesto é válido e é um direito, o que se tornou intolerância, da parte dos marabaixeiros, foi invadir a igreja no momento de uma missa e atrapalhar o seu ritual.

Atualmente essa pendenga é verificada somente com o marabaixo do Laguinho, visto que com o marabaixo da Favela o padre até vai aos barracos realizar os atos religiosos da manifestação.

domingo, 7 de junho de 2009

Artigo dominical

O peixinho nadador

Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Por favor, por favor!- disse um peixinho do mar a um outro peixe: - Você que deve ter mais experiência, talvez possa ajudar-me... Então me diga: Onde posso encontrar a coisa imensa que chamam de Oceano? Em toda parte eu o venho buscando sem sucesso.
- Mas é precisamente no Oceano que você está nadando - disse o outro.
- Oh...isto? Mas é pura e simplesmente água! – disse o peixe mais jovem, - eu procuro o grande Oceano! – E lá se foi nadando, muito desapontado, a buscar noutra parte.
Essa simples e bela historinha de Antony de Mello nos lembra que não basta procurar a verdade e o sentido de nossa vida com o olhar exterior. Muitas coisas começam a ser entendidas se procuramos vê-las com os olhos “interiores”, isto é, aceitando, ao mesmo tempo, as limitações e as riquezas do ser humano.
Se formos suficientemente humildes, deveríamos reconhecer as nossas limitações. Sempre tem algo além do que descobrimos e conhecemos. E também sempre aparece alguém com alguma novidade para complicar ainda mais os nossos raciocínios. Ficamos confusos. Sentimo-nos pequenos e inúteis. Somos tentados a parar com a nossa busca.
Por outro lado, a vida está cheia de surpresas. Quantas conquistas alcançamos, desde quando nascemos. Quanto aprendemos, e quanto já sabemos transmitir aos outros. Os grandes e os pequenos segredos da vida. Quem nunca, desde criança, ensinou algo a um colega, a um amigo? Todos nós temos uma experiência, ou um saber que entendemos valer a pena repassar. De pais para filhos. De companheiro para companheiro. Nesses casos nos sentimos importantes, na condição de quem sabe. É uma alegria.
Acredito que deveríamos nos ajudar também e trocar mais experiências quando falamos de Deus. No famoso discurso no Aerópago de Atenas, que encontramos no livro dos Atos 17,27-28, o apóstolo Paulo, entre outras coisas, diz “...Assim fez, para que (os homens) buscassem a Deus e, talvez às apalpadelas, o encontrassem, a ele que na realidade não está longe de cada um de nós; pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como disseram alguns dentre vossos poetas: ‘Também nós somos da sua linhagem”.
Se procurássemos mais com os nossos olhos interiores, todos teríamos muitas coisas para dizer sobre Deus. Ou talvez, mais do que falar, ficássemos contemplando, em silêncio, as suas maravilhas. Contudo, não sozinhos, mas de mãos dadas, de corações unidos, porque ninguém pode pensar em Deus, sentir a presença dele, perceber o seu amor, sem querer partilhar tudo isso com os seus irmãos, com entusiasmo e simpatia.
O mistério da Santíssima Trindade, que celebramos neste domingo não é um quebra cabeça para nos lembrar as nossas limitações. Ao contrário é a revelação do próprio Deus, para que ao adorá-lo como Pai, como Filho e como Espírito Santo, pudéssemos experimentar a sua grandeza e sua vontade de se fazer conhecer e amar, visto que Ele nos amou primeiro e da maneira mais perfeita possível.
Com efeito, quando chamamos a Deus de Pai, sentimos-nos filhos queridos, escolhidos, embalados por Alguém que sempre nos aguarda para nos abraçar quando voltamos, feridos, para casa. Quando admiramos o Filho, na vida, na morte e na ressurreição, não podemos não dizer com Tomé: “Meu Senhor e meu Deus”, tanto ele nos amou e nos ensinou a amar. Por fim, quando pensamos no Divino Espírito Santo, entendemos, finalmente, o que é o olhar interior, o que deve ser ver com os olhos da fé, da esperança e do amor. É pelo Espírito que foi derramado em nossos corações que proclamamos que “Jesus é o Senhor” e podemos orar com gemidos inexprimíveis ao Pai.
Se eu caísse num rio de águas fundas, com certeza morreria afogado porque nunca aprendi a nadar bem. Mas no oceano do amor de Deus, ninguém corre este perigo. Ninguém se perde porque estamos no nosso verdadeiro ambiente natural. Pena que alguns entre nós continuem procurando, sem saber para onde ir. Se percebessem que já estão mergulhados em Deus, iriam gostar muito. Vamos ajudá-los, se deixarem.

domingo, 24 de maio de 2009

Artigo dominical

Novas tecnologias, novas relações
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

No domingo da Ascensão do Senhor celebramos, todos os anos, também o Dia Mundial das Comunicações Sociais. Ainda hoje olhamos para o céu como os apóstolos, contudo não o fazemos mais porque estamos parados aguardando Aquele que um dia voltará. Ao contrário, sabemos que devemos voltar para a cidade, porém somos quase obrigados a imaginar os espaços celestes porque as novas tecnologias da comunicação abriram para a humanidade possibilidades antes impensáveis. Os “confins da terra” aos quais Jesus enviou os seus discípulos hoje são alcançados com extrema facilidade pelos meios de comunicação. Entendemos que quem controla esses meios tem um poder imenso, mas também é possível usá-los para o bem e a paz.
A mensagem do papa Bento XVI para este dia tem como tema: “Novas tecnologias, novas relações. Promover uma cultura de respeito, de diálogo, de amizade”. De maneira especial o papa quer falar aos jovens porque, entre os católicos, são eles que navegam com mais familiaridade pelo cyber-espaço e por isso os exorta a aproveitar desses novos caminhos para comunicar a “boa nova” de Jesus aos amigos que encontram nas aventuras on-line.

O papa lembra que a necessidade de comunicar é própria da natureza humana. Todos sentimos o desejo profundo de encontrar amigos. O grande projeto de Deus é fazer da humanidade uma grande família, onde todos se respeitem, saibam dialogar e experimentem uma verdadeira amizade. Nesse sentido o papa nos alerta a cultivar essas virtudes. Em razão do respeito à dignidade e ao valor da pessoa, devem ser excluídas imagens e palavras degradantes para o ser humano. Elas alimentam o ódio e a intolerância, envilecem a beleza e a intimidade da sexualidade humana, exploram os débeis e os inermes.

O diálogo entre pessoas de diferentes países, culturas e religiões é atraente e positivo, porque permite conhecer valores e tradições alheias. A escuta, porém, deve ser atenciosa e respeitosa. O diálogo deve estar radicado numa busca sincera e recíproca da verdade para promover a compreensão e a tolerância. A busca da verdade, do bem e do belo deve conduzir à felicidade e à alegria. Caso contrário torna-se consumo indiscriminado de novidades, onde a experiência subjetiva sobrepõe-se à própria verdade.

Enfim a amizade. Essa é uma das melhores e maiores experiências enriquecedoras do ser humano. Os amigos devem sustentar-se e encorajar-se reciprocamente, desenvolvendo assim os seus dons e talentos para colocá-los a serviço da comunidade humana. Contudo uma amizade virtual entre internautas pode tornar-se obsessiva ao ponto de prejudicar a família, os vizinhos e as pessoas que encontramos todos os dias. Nesse caso isola a pessoa e interrompe as relações sociais reais.

As redes de comunicação podem facilitar formas de cooperação entre os povos, aumentando a consciência da solidariedade e da co-responsabilidade pelo bem de todos. Devem alcançar também os economicamente e socialmente marginalizados, oferecendo-lhes a possibilidade de uma verdadeira socialização humana.

As últimas palavras do papa, porém, são dirigidas aos jovens católicos, para que saibam aproveitar desses novos instrumentos tecnológicos para a evangelização do novo “continente digital”. Bento XVI exorta os jovens a assumir com entusiasmo o anúncio do Evangelho aos seus coetâneo, porque eles conhecem mais do que os adultos os medos e as esperanças, os entusiasmos e as desilusões dos seus colegas. Devem partilhar com entusiasmo a resposta que a fé pode dar às expectativas de cada coração humano. Os jovens devem ser arautos de “um mundo onde reine o amor, onde os dons sejam compartilhados, onde se construa a unidade, onde a liberdade encontre o seu significado na verdade e a identidade de cada um se realize numa respeitosa comunhão”.

Que bom que o papa fale aos jovens e os exorte a usar bem das novas tecnologias da comunicação. Eis uma nova missão da Igreja, e os jovens podem ser os desbravadores desse “novo mundo” digital.

Em tempo: a nossa Diocese também voltou a ter o seu site: www.diocesedemacapa.com.br

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Artigo

Uma temporada no inferno

Carlos Lobato

Neste instante em que inicio este texto, cai sobre a Paulicéia um frio de doer os ossos de todo nortista acostumado ao sol e ao calor.
Tudo estava sereno, de repente, o arco-íris do dia a dia se transformou em nuvens cinzentas e ameaçadoras. Eu, sozinho, no escritório, resolvi saciar minha curiosidade médica e, não hesitei: me deitei na “rede” e busquei os resultados dos exames aos quais havia me submetido. Confuso com a terminologia da linguagem técnica e, já meio sem controle, liguei para o médico para que traduzisse aquilo que lia, mas não compreendia. A tradução me trouxe uma enxurrada de certezas e desafios. A certeza principal era a mudança que meu estado clínico de saúde, afinal, eu acabara de entrar no grupo dos pacientes portadores de CA, um mal que assusta até diácono de Igreja Católica. O pior, o falo era o órgão que seria afetado, pois a próstata era a vil residência do maligno companheiro.
Confesso que meu mundo se fragmentou tal qual o então sólido muro de Berlim, segregacionista e impávido diante das dores daquele povo que foi dividido pela intolerância dos homens. Dali pra frente, me vi dividido, não como querem alguns psicanalistas – mente/corpo -, mas em mim, comigo/ self, e, mim / ti atores do meu universo – mulher, filhos, pais, amigos... - o que fazer? Parafraseando o velho Ilitch Ulianov , o Lênin.
Decidi que faria da desgraça um passo de valsa e que cantaria/ contaria a todos que me inspirassem confiança. Chamei os “eleitos” para o salão e, juntos, dançamos o “cisne negro”. Assim foi.
Dentro de mim, homem de natureza polêmica roça o Lobato ateu, agnóstico, messiânico, espírita, católico, traficante de idéias, e, como diria Rimbaud “blasfemador incorrigível” que muitas vezes se confunde com o apaixonado no campo das idéias ou visionário, mas que alimenta uma alcatéia de críticos que se atiça para decifrar e divergir de meus postulados. É a vida!
Não tenho vocação para cordeiro, habito um mundo onde matilhas sempre estão e estarão à espera da presa que se apressa em fraquejar se atirando na sarjeta do insensato destino.
Se essa viagem me levou aos escanhinhos do inferno, quero compreender a lógica de tudo isso, sem me abraçar ou beijar o capeta. Quero minha passagem de volta! E, para voltar, precisava ir à São Paulo “combater o bom combate”. Confiei em conselhos de amigos, marquei a cirurgia, conheci, experienciando, o significado da palavra UTI - complicações me deixaram lá por um dia e meio, tempo suficiente para fazer uma regressão e repisar filmes reais de minha história de vida. Confesso que vivi!
Hoje, vivo minha recuperação, angustiado entre voltar para minha aldeia e abraçar meus filhos, minha mãe e uma das irmãs que chegarão na quinta-feira. De tudo por tudo, uma certeza: após o dilúvio se aquietar uma lebre parou entre os sanfenos e as móveis campânulas, e recitou sua oração ao arco-íris, através de uma teia de aranha. Os versos me remeteram ao poeta Fernando, cujo Canto assim me ensinava: “colorido é um sonho em preto e branco, que a gente vê e não percebe o equilíbrio de uma cor...”. Desliguei tudo, inclusive a mim e fui deitar com o sofejo da Juliele quando questiona: “de quem é a razão quando a razão erra?”

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Artigo

"Lei Capiberibe": a transparência contra a corrupção
*Janete Capiberibe

O Brasil está a um passo de instituir uma ferramenta poderosa para combater a corrupção: a transparência a partir da publicação de todas as contas públicas, em tempo real, na Internet. O projeto de lei complementar neste sentido foi aprovado nesta semana pela Câmara dos Deputados, com 389 votos favoráveis, de todos os partidos, nenhum voto contrário e apenas uma abstenção. De autoria do ex-senador João Capiberibe (PSB/AP), falta apenas ser sancionado pelo presidente da República para virar lei.
Foi o governador Capiberibe, pioneiro, em 2001, que determinou a publicação de todas as contas do governo do estado do Amapá na Internet. Quando chegara ao governo, em 1995, havia informatizado a estrutura governamental e acessava, do seu gabinete, toda a movimentação financeira do governo estadual. Assim, podia detectar se houvesse qualquer indício de superfaturamento ou fraude nas compras, contratos e licitações. Deu resultado e decidiu que todo o cidadão tinha o direito de saber, efetivamente, o que era feito com o dinheiro que pagava por meio dos impostos. Até hoje as contas do governo do Amapá podem ser acessadas pelo site www.amapa.gov.br/gestao. Eleito para o Senado, em 2002, propôs estender a iniciativa a todo o país.
Ao mesmo tempo, eu e o senador Capiberibe éramos vítimas de uma armação e nos defendíamos da acusação infundada feita pelo PMDB do senador José Sarney que, com uma série de manobras e duas testemunhas - sustentadas economicamente pelo senador Gilvam Borges, que assumiu a vaga de Capiberibe -, nos tirou os mandatos acusando-nos de comprar dois votos ao preço de 26 reais cada, pagos em duas parcelas.
Hoje, o uso privado das repartições e dinheiro públicos ampliou o apelo social por iniciativas que aperfeiçoem a democracia e protejam os cofres públicos. Ironicamente, o projeto de Capiberibe, senador pelo Amapá cassado injustamente, é a ferramenta escolhida e aprovada pelo Congresso Nacional para inibir a corrupção, dentre os piores crimes que têm amparo nos velhos coronéis da política.
O Projeto, batizado de lei Capiberibe pelo líder do PSB na Câmara, obriga a divulgação de todas as contas públicas na rede mundial de computadores, sem qualquer restrição de acesso. A obrigatoriedade por força de lei evitará que a democratização dessas informações seja refém da vontade do governante.
A partir da assinatura da Lei, a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios com mais de cem mil habitantes terão um ano para publicar as contas na Internet. As cidades com população entre 50 mil e cem mil pessoas terão dois anos para se adaptar. Já os municípios com até 50 mil habitantes terão quatro anos de prazo. Quem não cumprir a lei será impedido de receber transferências voluntárias da União.
Assim, dá visibilidade ao orçamento e à contabilidade públicas, facilita a fiscalização e inibe a corrupção. Qualquer cidadão poderá saber, antecipadamente, com a publicação em tempo real da nota de empenho das compras e gastos públicos, quanto será pago por um serviço ou por um produto, a descrição e a quantidade que será comprada e quem receberá o pagamento. Agindo assim, poder público e sociedade civil poderão detectar e anular o ato lesivo antes que ele se concretize, já que serão publicadas as notas de empenho ou de compras antes que o pagamento seja feito. Todos os ocupantes de cargos públicos serão tratados igualmente.
Deste modo, a transparência nas contas públicas é um poderoso instrumento de controle social, que reduz as práticas criminosas na aplicação do dinheiro do contribuinte. Cada cidadão, individualmente, e a sociedade civil terão ampliada sua participação no funcionamento do Estado e veremos fortalecida nossa democracia, banindo a corrupção da prática cotidiana das relações público-privadas.

*Janete Capiberibe é deputada federal do PSB eleita pelo Amapá e membro da Frente Parlamentar de Combate à Corrupção.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Artigo

Doe a vida para quem gera vida
Professor Alcides de Oliveira
(alcides.oliveira2005@ig.com.br)

Segundo domingo do mês de Maio, dia das mães, muito movimento de pessoas nas lojas, nos shoopings, nos bazares, pessoas essas buscando o que de melhor possam dar para as suas mães, um brinco, uma bolsa, um celular, um perfume, talvez esses denotem a gratidão dessas pessoas, talvez eles possam determinar o quanto gostam, o quanto amam e assim satisfazer o ego, imaginando com isso estar retribuindo aquilo que lhes foi dado por Deus, utilizando a sua maior parceira, a sua mais importante ferramenta na terra que é a mulher, abençoando-a e dando-lhe uma honrosa missão, a mais bela das missões, a maior das missões que um ser humano pode ter nessa terra, missão essa de doação do seu corpo e da sua alma, das suas entranhas, do seu sangue, do seu alimento, do seu respirar, para gerar uma vida, gerar mais vidas, gerar vida, tornando-se assim a sublime criatura do universo, única detentora do bendito e maravilhoso dom de dar a luz. Essa fantástica criatura ao gerar uma outra fantástica criatura que é o ser humano, torna-se o centro, o molde, o vértice de tudo de magnífico e de bom que pode ser extraído, como o principal dos sentimentos que é o amor, amor esse que emana dessa criatura como uma fonte de água cristalina, procurando derramar sobre toda a humanidade, sobre todos os seres humanos, seus filhos, esse amor, e junto com ele a dedicação, a mansidão, a ternura, a compreensão, a proteção, enfim, a sua vida.

A importância dessa magnífica pessoa na humanidade é tanta que exprimir toda essa essência com palavras é verdadeiramente impossível, é impossível mostrar toda a gratidão e preencher o coração dela de agradecimento, pois tudo que materialmente se fizer por ela, jamais, alguma retribuição alcançará a alegria do filho de ter nascido e estar vivo.

Uma suprema verdade que é também um dos maravilhosos sentimentos inerente a esse magnífico ser humano, é o de nunca procurar ter retribuição pelo que é, nunca querer nada em troca por ter gerado, por ter amor no coração, por amar seus filhos, por lhes dar educação, por dar-lhes segurança e afeto, por lhes dar carinho e apoio em todas as horas, por lhes dar a madrugada sem sono porque ele está doente, por quase morrer de ansiedade ao vê-lo galgar um degrau, por oferecer-lhe a própria vida, se preciso. Algum dia, ganhar um brinco não está nos seus planos, como não está em ganhar uma bolsa, um celular, um perfume, não por desdém ou por soberba perante seus filhos, mas é principalmente para que esses não se preocupem, talvez em gastar o que não tem, para satisfazê-la, porque o que mais a satisfaz é vê-los com saúde e felizes.

A esse magnífico ser humano, acredita-se que para exaltá-la, para torná-la e fazê-la feliz será necessário as atitudes daqueles os quais gerou, atitudes como o respeitá-la, o lhe dar carinho, o estar presente, o cuidar, o sentar e conversar, o pedir conselho, o deitar no colo, o pedir a benção, o abraçar e dizer te amo todos os dias, vê-la envelhecer e daí respeitar muito mais, levar os netos para beijá-la e brincar com ela, balançá-la e ao vê-la adormecer fazer silêncio absoluto e nunca, jamais, ser intolerante, jamais levantar a voz, sempre ser manso e benevolente com ela, assim se sentirá feliz. Agora, nunca, nunca tomar a maldita atitude de levar esse magnífico ser humano, mãe, para um asilo, excluí-la, descartá-la, por que com a maior das certezas a mãe não merecerá isso, pois com a maior das certezas o que realmente a mãe merece é que durante toda a sua vida, as vidas que ela gerou, seja permanentemente doadas a ela para sua felicidade e para a felicidade de Deus.

domingo, 3 de maio de 2009

Artigo dominical

O Belo Pastor

Dom Pedro José Conti, bispo de Macapá

Chamamos de “narcisista” aquela pessoa que fica olhando somente para si, exaltando unicamente as suas qualidades, achando-se o máximo, a única, a perfeita. Quem tem esse defeito não consegue ver a beleza dos outros. A palavra vem do mito de Narciso, da Antiga Grécia. Segundo esse mito, Narciso era um jovem belíssimo que, ao ver-se espelhado numa fonte, apaixonou-se por ele mesmo e morreu de tanto langor. Os deuses, comovidos, o transformaram na flor que leva o seu nome. O sentido desse mito é uma reflexão sobre a beleza enganadora; encanta, seduz, mas ao mesmo tempo prende e paralisa. Torna-nos cegos, incapazes de ver além dela, de reconhecer as qualidades dos outros.


Com isso entendemos que existem vários tipos de beleza. Nas obras de arte, nas pessoas e nos sentimentos. A verdadeira beleza nos conduz ao estupor, ao encantamento, à elevação do espírito. Desperta em nós o desejo de algo do qual sentimos saudade, porque deixou uma marca dentro de nós, algo que buscamos de novo e sempre, como se o tivéssemos perdido, e que nos dará alegria e satisfação ao encontrá-lo novamente. Que beleza é essa que buscamos? Os artistas de todas as artes e de todos os tempos nos ajudam a não esquecê-la e a não trocá-la pelas coisas banais do consumo e das modas que passam. Muitos a chamam de “paraíso perdido”, dele sentimos saudade. Para quem tem fé, somente Deus é a perfeição da beleza, o único sem defeito, capaz de atrair para libertar e salvar.

Eu não entendo nada de arte, não desenho, nem toco música. Mal consigo segurar um canto. Contudo, fico encantado com a beleza das obras de arte, com a música que alegra e acalma o coração, com a poesia que consegue expressar o que parecia inexprimível. Existem também novas artes, como a do cinema, por exemplo. Fico comovido ao assistir a certas cenas. Mexem no profundo. Fazem bem, fazem pensar e refletir. Essa é outra missão das artes e dos artistas.

Tudo isso para lembrar que neste domingo encontramos o evangelho do Bom Pastor. Os biblistas nos dizem que aquela palavra grega foi mal traduzida. Na realidade Jesus deveria ser chamado de Belo Pastor. Deixo as disputas aos sábios e entendidos. Somente gostaria ajudar a compreender para que ninguém chegue à conclusão que foi enganado. De jeito nenhum.

Parece-nos mais familiar e compreensível falar do Bom Pastor. É verdade. Assim estamos acostumados. Também porque quando pensamos na beleza a nossa mente vai às imagens das, ou dos, modelos fascinantes com o seu brilho, o seu andar peculiar, esbanjando o charme de corpos supostamente perfeitos. Tudo para chamar a atenção e vender algum produto. São os “padrões” da beleza masculina e feminina que a moda e o consumo nos vendem. Com isso estamos perdendo a capacidade de ver e perceber o belo verdadeiro e a beleza que está ao nosso alcance, debaixo dos nossos olhos. Pode ser a beleza de uma família reunida, com pais e filhos brincando juntos. O carinho de uma mãe embalando o seu filho. A alegria de um pai carregando uma criança nos ombros. O sorriso de um idoso gostando da vida, transmitindo mais vitória do que derrota, mais confiança que desistência. O barulho alegre das crianças, a perseverança dos jovens nos seus sonhos, o aperto de mão de amigos que se encontram. O andar vagaroso de uma procissão, o canto de milhares de vozes reunidas. Uma prece silenciosa. E as maravilhas da natureza que nos deixam sem palavras. Quantas belezas singelas desperdiçadas!

Todas têm algo em comum: a alegria, a gratuidade e o amor. O Belo Pastor é o mesmo Bom Pastor. Não é belo para ser olhado, mas para ser contemplado. Atrai com seu acolher amoroso, com seu coração compassivo, com sua coragem desafiadora. Atrai com sua palavra de vida. Não tem nada para vender, porque tudo o que tem é para ser dado. Ele quer ganhar somente o nosso amor, não quer o nosso dinheiro ou a nossa liberdade. Um amor assim não prende, liberta, leva a Deus e ao próximo. Não suscita inveja, ganância, narcisismo. Faz esquecer a si mesmo para doar inteiramente a própria vida. O Belo Pastor é aquele que na cruz não teve beleza alguma, nem aparência humana de tanto sofrer. Não um imaginário Jesus colorido, voando, espalhando raios de luz. Um Jesus desfigurado amando até o fim. É a beleza da bondade. Eu fico com o Bom Pastor, mas agora sei que também é belo, é “o mais belo dos filhos dos homens” como canta o Salmo 45,3. Essa bondade-beleza me atrai e me conduz pelo caminho do bem. Não posso esperar. Não quero chegar a dizer como Santo Agostinho: “Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei”. Nunca é tarde para amar; nunca é tarde para ficar encantados com a verdadeira e eterna beleza do amor. Do belo amor de Jesus também.

sábado, 25 de abril de 2009

Artigo

Umas Margaridas e uns Domingos
Professor Alcides de Oliveira
alcides.oliveira2005@ig.com.br

Ao começar a se falar desses dois ilustres personagens, brasileiríssimos, amapaenses dos "pés rachados", trazidos ao nosso conhecimento pela reportagem de uma tv, é necessário primeiro falar que são dois anciãos, Dona Margarida e seu Domingos, representando sem saber a vida humilhante, degradante de milhões de anciãos, que estão nesse momento vivendo a nossa volta, em todo o lugar desse país, em toda a comunidade formadora dessa sociedade, sociedade essa paradoxal, pois nesse sentido, não pode essa sociedade ser social, pois não direciona essa qualidade para o viver desses anciãos. São duas pessoas lucidamente vivendo o resto de suas vidas, em um lugar bucólico, longe de burburinhos, sombreados pelas palmeiras dos açaizais, tendo como companhia seus anjos da guarda, suas lembranças distantes e a companhia mais importante nesse momento que é a esperança, pois mesmo com o avançado das duas idades, não a perderam, pelo contrário, está mais viva do que nunca, porque nunca, nunca precisaram tanto dela como agora, pois nesse momento das suas vidas ela representa a vontade de continuar a viver, representa ter saúde, representa ter comida para matar a fome, representa sarar as feridas trazidas pelo tempo, representa aliviar a dor do desprezo e do abandono, representa o encontrar de um carinho, de um respeito, de uma amizade, de uma caridade, de um aperto de mão, de um beijo na face ou de um abraço apertado. Essas duas almas sagradas, com os seus corpos sagrados, marcados pelo tempo, tentando ainda carregar esse tempo tão pesado, pesando ainda mais do que está, não querem muita coisa, o que querem é que todos os vejam, querem que todos os adicionem, querem ser mirados e assim ao serem mirados, que quem os mira sintam o que estão sentindo, querem que não sintam pena deles, mas que lhes deem dignidade e se possível ofício, querem ser incluídos, querem ser se não amados, mas amigos, eles gritam, mas suas vozes não são ouvidas ou os ouvidos que deviam ouvi-las, tem os tímpanos fechados hermeticamente para esses e abertos para quem não os faça esse tímpano vibrar e assim supostamente, se sentem desobrigados, mas suas consciências, quando as tem, muito mais instigantes e sofridas hão de ficar. Por que tem que ser assim? Por que esse dois anciãos tem que sofrer? Por que a distância de todos? Por que depois de tanto viver eles tem que viver na doença e na fome? Por que o poder público não os vê se eles estão ali, e se não os vê por que então é poder? Por que a sociedade que está a sua volta não os assume e se não os assume por que é social? Muitas perguntas e respostas nenhuma, ou quase nenhuma, quase, pois nem todos os seres humanos são tão poucos humanos, porque muitos são muito humanos, como estes que trouxeram a imagem da vida desses anciãos para todos que quiserem ver, eles não só trouxeram mas levaram também, levaram além de bens materiais o carinho, o respeito, o amor fraterno, a dignidade, levaram a cor da vida, a temperatura da vida, a alegria da vida, o alimento da vida e sendo assim eles levaram aquilo que aquelas duas vidas mais do que tudo precisam, eles levaram a esperança da vida que com certeza aqueles dois seres humanos nos seus cantinhos ali vivendo, nunca perderam, pois em seus pensamentos elevam aos céus agradecimentos mil àqueles que com muito senso de humanidade os fizeram trazer do fundo de suas almas um sorriso, que a muito estava guardado, porque a muito não houve motivo para mostrá-lo. Muitos seres realmente humanos, estão fazendo parte desse texto com muita honra, e eles sabem disso, porque todos tem a certeza que eles ao depararem com outras Margaridas e outros Domingos, também os farão trazer do fundo de suas almas, o sorriso, porque além de serem Margaridas e Domingos, são humanos e merecem sorrir.