quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Um poema de Saramar

Farta de concordância,
desato o verbo e
exijo a construção
das crianças
com a argamassa
do sonho e do riso.
Refaçam-se as metáforas,
povoem os livros de flores
e enxotem as palavras
de ordem.
Acabem com os sujeitos ocultos
da guerra e seus objetos mortíferos.
Ressuscitem a alma das crianças
para chorar as crianças mortas
enfim inatingíveis por obuses
e pelos absurdos cruéis dos
monstros carnívoros,
senhores das armaduras,
das frases duras.
Procurem outros tempos
em que os verbos se conjugavam
no presente e no futuro,
traduzindo-se em esperança.
Apaguem as orações radicais
e em seu lugar deponham as armas.
Destruam as onomatopéias malignas
das balas tracejando em corpos
infantis e cobrindo de vermelho
a infância e a juventude.
Desmontem os mísseis,
trocando-os por cartas de amor,
de amizade, de perdão.
Acendam a luz nos olhos
dos velhos, cansados de
procurar a mensagem
dos deuses em sangue e lágrimas.
Basta de antônimos,
queremos igualdade de termos
queremos construir juntos,
os versos livres,
os versos brancos da
PAZ!


(Este poema faz parte da blogagem coletiva pela Paz na Terra, proposta pelo Lino Resende. É lindo, né não? Conheça outras belas poesias de Saramar Mendes no blog Abrindo Janelas. Aproveita e passa no Blog Suite que lá tem uma excelente entrevista com a Saramar)